Excerto da memória descritiva
“Esta cenografia surge no âmbito
da 3ª edição do Festival “W.A.Y”
realizado no espaço Fragil-Lux em Lisboa, em abril 2006. Uma
cenografia é um processo inter-activo entre o criador do
espaço e o encenador... sem dúvida uma co-autoria.O
espaço disponível para esta actuação era o
terraço do edifício Lux, com uma relação
soberba entre rio e cidade.
A envolvente só podia complementar o percurso narrativo,
necessitando de um “espaço teatral autónomo”
e low budget para o desenvolvimento da peça.Um espaço
autónomo, que conseguisse conter, sem revelar, a intimidade do
espaço de actuação, e que ao mesmo tempo criasse
uma relação com o espaço de
implantação. Uma “caixa” para guardar um
segredo.
Uma estrutura modular em perfis metálicos, com base para uma
pele em painéis de fibrocimento (viroc) serviram para construir
o “contentor”. Pormenores simples para uma
“arquitectura” efémera cujo único objectivo
é velar para a intimidade do espaço, não revelar
aquilo que será o percurso do espectador, o percurso de um
espectáculo, um caminho de uma vida.Um objecto regular, com uma
métrica modular a conter 4 espaços diferenciados que
transmitem através dos conteúdos emoções
distintas:
a primeira sala é um espaço húmido, parcialmente
inundado, desconfortável, que precisa de ser atravessado para se
poder alcançar a porta de passagem para outra sala ( a
continuação do caminho ou metaforicamente a outra fase )
e a primeira mensagem (carta I) ;
na segunda sala, um espaço decadente talvez a representar a
força da natureza a actuar sobre espaços artificiais
abandonados, a passagem continua fria, o ar circula a grande velocidade
e o pó do entulho dificulta a visão...uma porta vermelha
do lado oposto anuncia uma entrada.
A terceira sala é o lar, um espaço modesto em que o calor
humano é criado pelo encontro entre espectador e actor que
interagem no seu interior.
O quarto espaço é um caminho para o fim, um lugar escuro
(em que a visão é completamente reduzida) para percorrer
descalços. Um lugar em que o cheiro da primavera em conjunto com
a percepção táctil recompõe e conclui esta
peça.
À saída o rio e a cidade iluminada.